Cidadania começa na calçada

   São Paulo: principal centro financeiro do país, cidade brasileira mais influente no âmbito internacional e 10º maior PIB do planeta. Agitação 24 horas, onde tudo acontece ao mesmo tempo, com rotinas e circuitos culturais efervescentes. Entre prédios, condomínios, empresas e arranha-céus a perder de vista, mais de 11,3 milhões de pessoas circulam por ruas e avenidas movimentadas, fazendo desta a 6ª cidade mais populosa do mundo. 
  É nesse cenário conturbado que, diariamente, as pessoas seguem seus caminhos de asfalto, mas esquecem que é na porta de casa onde começa o direito de ir e vir. As calçadas ou passeios unem bairros e comunidades, conferindo ao pedestre maior conforto e segurança nos momentos de transitar pela cidade. Elas fazem parte do projeto de infraestrutura urbana para valorização da mobilidade, já que funcionam como alternativa aos veículos motorizados para curtas distâncias. Elas também retratam um modelo integrado de circulação de pessoas, que ganham um espaço próprio para realização de seus deslocamentos.


   O Código de Trânsito Brasileiro (CTB) define calçadas como parte integrante do sistema viário da cidade. Boa parcela do trânsito em trajetos superiores a 500 metros ainda é realizada a pé, fato que evidencia a importância desses corredores como ambientes de interação social, sendo essenciais para realização de distintas funções urbanas, como trabalhar, estudar, lazer etc.
  No entanto, apesar de ser um direito previsto em constituição, o ir e vir nem sempre é respeitado do jeito que deveria. Andar a pé, uma ação cotidiana primária, é ainda um problema quando as calçadas não apresentam condições adequadas quanto aos critérios de acessibilidade para pedestres. Buracos, ausência de calçamento, bloqueio de passagens com objetos, grandes desníveis e falta de equipamentos para pessoas com deficiência são questões que dificultam sua utilização.
     Em São Paulo, 35 mil quilômetros de calçadas cortam as quatro zonas da cidade, sendo que boa parte delas se encontra em estado inadequado de uso. Numa pequena volta pelos passeios do bairro da Luz, por exemplo, podem ser constatados todos os problemas citados anteriormente. Em alguns pontos, o pedestre é obrigado a fazer a passagem pela rua, já que a calçada não oferece condições, comprometendo os aspectos de conforto e segurança que o espaço deveria proporcionar.


    A situação se torna ainda mais complicada no trecho de acesso à Sala São Paulo pela Rua Mauá. Além de buracos e desníveis, o pedestre ainda encontra uma banca de jornal que ocupa metade da calçada, sem contar na quantidade de lixo que é jogado no local, impossibilitando o trânsito, principalmente para pessoas com deficiência ou mobilidade reduzida. Isso mostra que, mesmo sendo considerada turística, a região não é pensada e estruturada em cima de políticas de mobilidade e sofre com problemas básicos de acessibilidade. 
  Em muitas cidades brasileiras, a responsabilidade pela manutenção dos passeios é repassada ao morador. Em São Paulo, a Lei 15.733/13 regulamenta infrações constatadas em calçadas, estando os proprietários dos imóveis responsáveis pela regularização no prazo de 60 dias. Em trechos localizados diante de propriedades públicas, a obrigação sobre a manutenção passa para a Prefeitura.
  Independente de responsabilidade, calçadas em bom estado de conservação são um direito do pedestre, mas os benefícios de uma infraestrutura adequada vão além dele. Ganha o poder público pela realização de um serviço de qualidade; ganham os moradores, que têm seus imóveis valorizados com a preservação de uma comunidade estruturada; ganha a cidadania, com os respeito aos direitos e limitações dos habitantes; e ganha o turismo, que se aproveita das vantagens de um mobiliário urbano em boas condições para divulgar a cidade, gerando renda e movimentando a economia local.

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Uma Bienal de acessibilidades

     Imaginação, devaneio, crítica ou puramente uma análise estética: a 31ª Bienal de São Paulo apresenta trabalhos que desafiam a compreensão de apreciadores e curiosos das artes. Num mundo contemporâneo onde as antigas formas de produção nas mais diversas áreas já não cabem no atual contexto global e os novos formatos ainda não foram delineados, “como (compreender / entender / apreciar / pensar em) coisas que não existem”? Essas são perspectivas da Bienal que vão além das barreiras físicas e que instigam os limites da nossa acessibilidade cultural.
      Assim como tudo no mundo, a nossa aproximação com a arte e com a cultura só faz sentido quando nos tornamos acessíveis a elas. Precisamos ir além da compreensão e do óbvio para enxergarmos uma mensagem onde parece apenas haver rabiscos, ferros retorcidos ou garrafas de plástico. Nem tudo é concreto, nem tudo está claro. Muitas vezes o conceito filosófico de arte se encontra apenas no conteúdo, transcendendo as formas físicas do objeto.

Bienal de São Paulo (Fonte: jovempam.uol.com.br)
    Essa acessibilidade pode ser estabelecida de maneiras divergentes, impondo significados diversos que estão diretamente ligados à cultura do visitante. Ou seja, as interpretações serão feitas de acordo com a formação cultural e social de cada um, gerando visões e impactos diferenciados. Até mesmo a ausência de sentimento já se configura como resposta. A indiferença pode ser entendida como distanciamento e, consequentemente, como um aspecto que evidencia limitações de compreensão dos trabalhos pelo visitante.
     A aversão à obra ou a simples discordância também pode ser considerada uma forma de mensurar sua acessibilidade. O visitante entende o que o autor do trabalho quis passar, mas diverge do conteúdo por estar em desacordo com a sua cultura/crença ou até mesmo por não considerar aquilo como uma forma de arte. Muitas vezes o trabalho gera um sentimento de transgressão tão grande que, mais do que apenas cultural, a acessibilidade passa a ser espacial, restringindo o contato com a obra aos olhos dos “capacitados” para entender o trabalho na sua essência. Essa restrição está muito presente em peças com teor de crítica social e religiosa.

Obra "Mujawara" (Foto: Ronald Souza)

   No entanto, apesar do preciosismo interpretativo que permeia a essência humana, nem tudo precisa de explicação para ser acessível. Muitas vezes é a experimentação visual que conta; a estética pela estética que carrega consigo a função objetiva de agradar e desagradar, sem elucubrações profundas ou devaneios aristotélicos. Se as novas formas de produção artística ainda não foram delineadas, por que não ousar?  Por que não abusar da criatividade? É a arte na sua forma de acessibilidade mais rasa.
     Diante de tantos trabalhos controversos, visitar a Bienal acaba se transformando num exercício de abstração, muito embora seja quase impossível não desenvolver algum tipo de relação com as obras, seja pela beleza, pelo conteúdo ou pelo impacto gerado. E essas relações nem sempre são positivas ou condizentes com aquela que o artista queria estabelecer. Mas para que serve a arte senão para gerar discussões? O que é a arte senão a beleza em meio ao caos? Bons ou ruins, obras de arte buscam despertar sentimentos e são eles que conferem importância social ao trabalho e legitimam sua acessibilidade.

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Ibirapuera: desafios de inclusão

    Ibirapuera, zona sul de São Paulo. Entre sóis e céus, eis que ele surge como um ponto verde em meio à imensidão cinza da capital. Encantador por essência, agregador por tradição. Espaço de ideias, de cultura e conhecimento; ambiente de lazer, encontros e desencontros. Gira tempo, gira roda, gira vida: giram causos e histórias que fazem dele um verdadeiro troféu paulistano. 
Fonte: www.trevotur.com.br
    Inaugurado em 1954, em comemoração aos 400 anos de São Paulo, o Parque Ibirapuera reúne todas as diferenças. Por ser uma das mais importantes áreas verdes da cidade, o espaço atrai milhares de pessoas, principalmente aos finais de semana, que buscam fugir um pouco da rotina de concreto semanal. Um piquenique, uma caminhada, o contato com a natureza: esses são apenas alguns detalhes que caracterizam a sua atmosfera acolhedora. 
    Mas será que ele está pronto para receber todos os tipos de público? Será que o Ibirapuera consegue abraçar todas as diferenças igualmente? Como se estabelece a relação espaço/indivíduo com as pessoas com deficiência? Esse ainda continua sendo um problema estrutural que desafia a lógica do seu caráter receptivo.
  O conceito de acessibilidade ainda é algo bastante deturpado no seio da sociedade contemporânea. Assim como em muitos lugares e atrativos turísticos, o parque ainda restringe as suas políticas de inclusão à deficiência física, ignorando outras necessidades de adaptação. A ausência de piso tátil, áudio guias e monitores, por exemplo, compromete os princípios de autonomia e segurança para um deficiente visual, limitando o seu acesso ao espaço.
Fonte: www.thaisfrota.com.br
   E mesmo para os deficientes físicos, a visita também se torna desafiadora. Além de enfrentar suas próprias limitações, o parque ainda impõe barreiras estruturais para o deslocamento. As vias principais acabam se tornando o espaço mais seguro para o passeio, já que caminhos alternativos em meio à vegetação (que são bastante utilizados por pessoas sem deficiência para os mais diversos tipos de atividades) inexistem ou estão em mau estado de conservação. Com relação aos banheiros adaptados, eles também estão lá, porém muitos deles se encontram fechados ou bloqueados para uso.
  Já equipamentos como os museus, o planetário, os centros culturais etc, são de fácil acesso. As quadras esportivas também permitem a entrada de cadeirantes de forma autônoma. Em função dessa facilidade, esses pontos acabam se tornando os locais mais indicados para circulação dos visitantes com deficiência física. Lá podem ser realizadas atividades ao ar livre com o devido espaço para a alocação de materiais de recreação, além de permitir uma maior movimentação dos mesmos.
   Apesar das restrições e da necessidade de se pensar um espaço de forma universal, o Ibirapuera ainda continua sendo uma referência no que diz respeito a equipamentos de lazer na capital paulista. Mais do que um local de visitação e/ou divertimento, o parque representa uma cultura de ócio, de descanso para o paulistano. Pela sua importância para a população e para a cidade, evidencia-se a necessidade de torna-lo cada vez mais abrangente, diminuindo barreiras quem possam limitar o seu uso.  


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Zero e Ene: entre o real e o imaginário

Fonte: vejasp.abril.com.br
   Dizer N coisas, ter N motivos, viajar para N lugares. Essas são expressões que ouvimos com muita frequência no nosso dia a dia. Por convenção, sabemos que o N é sinônimo de muito. Muitas coisas para fazer, ter muitos motivos, viajar para muitos lugares. Mas ai é que surgem grandes questões: por que o N? Quem inventou a expressão? Onde ficam as outras letras do alfabeto nessa história? Dúvidas bem pertinentes para aqueles mais curiosos.
 Mas, como para quase tudo no mundo, a escolha do símbolo tem sim uma explicação. A letra N é a representação matemática do enésimo número. Ele nunca foi alcançado, medido, ou seja, não se sabe que número é esse. Daí vem o seu emprego como expressão de quantidade/distância. São tantas coisas para dizer, tantos motivos para ter e tanto lugares para viajar que nem mesmo a ciência consegue contar. 
Fonte: parlapatoes.com.br
  E assim funciona também a nossa existência. Cada pessoa
tem seu ene assim como cada zero tem as suas aspirações. Começamos a vida como zeros e com o passar dos anos vamos evoluindo em busca do nosso ene, em busca do nosso verdadeiro eu. 
  Mas essa perseguição nem sempre é fácil. O caminho de zero a ene parece infinito. É como se fossem dois extremos presos ao mesmo corpo, mas que não conseguem se encontrar. Dependem um do outro para existir, mas vivem em busca de objetivos opostos.
  Com esse conflito de interesses, acabamos nos desviando ainda mais nossos enes. Vivemos num eterno desejo de aceitação perante a sociedade, de encaixe nos padrões, de existência diante dos outros que acabamos virando o que não somos. Aos poucos, essa inversão de valores vai matando o nosso ene, vai sufocando quem realmente gostaríamos de ser, mantendo-nos eternamente presos ao zero.
   Essa é a história da tragicomédia “O longo caminho que vai de Zero a Ene”, do dramaturgo Timochenco Whebi. O autor se destacou nos primeiros anos da década de 70, levando para os palcos personagens densas, conflituosas e que transitam entre os mundos real e imaginário.  
 Com produção do diretor Wanderley Damaceno, o espetáculo foi encenado no dia 26/08, no Teatro união Cultural, em São Paulo. Anderson Negreiro e David Carolla interpretam as personagens Zero e Ene na peça, que tem participação especial de Elaine Gomes dando vida à voz da consciência.




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Uma viagem de inclusão

Fonte: http://turismoadaptado.wordpress.com/
Em dias de mente vazia a imaginação parece desafiar qualquer lei da física que impeça nossa pobre matéria de levitar. Os pensamentos se inflam, viajam quilômetros e quilômetros por terras desconhecidas até encontrarem o conforto de uma ideia acolhedora. Pensamentos que vêm e vão embalados por sentimentos iguais àqueles que descobrimos quando criança ao ouvirmos uma boa história.
E é exatamente em meio a uma ‘viagem’ como essa que, à vezes, eu me flagro questionando por que pessoas gostam tanto de viajar. É um tal de arrumar mala, organizar finanças, um corre-corre para chegar ao aeroporto ou rodoviária, filas infindáveis para conseguir visitar um local onde você não conhece nada, ninguém te conhece, muitas vezes um local que ninguém fala sua língua e por ai vai, só para ver algo que te disseram que era bonito ou legal. Resultado: uma mente em colapso.
Mas nos apeguemos à bonança que se aproxima. É em meio a essa confusão de ideias que eu me lembro das viagens que fiz e respondo aos porquês com um sorriso nos lábios e um alívio no peito: liberdade. Liberdade de decidir, liberdade de conhecer. Liberdade de ver, de experimentar, de gostar ou não, de fugir. Liberdade de me provar, de conhecer os meus limites. Liberdade para ser livre.
Limitações fazem parte do dia a dia e vivemos aprendendo a lidar com elas. Um chefe chato no trabalho, um aeroporto lotado, uma condição de saúde que requer mais atenção, mobilidade reduzida, uma deficiência. Todos nós estamos presos às nossas próprias amarras, iluminados pelo desejo de um momento em que possamos nos sentir libertos, mesmo que de forma temporária. E nesse meio tempo queremos ver o mundo, queremos fazer parte dele, queremos fazer do nosso jeito aquilo que sempre pensamos estar destinado ao outro.
Já dizia o poeta português Fernando Pessoa, “A vida é o que fazemos dela. As viagens são os viajantes. O que vemos não é o que vemos, senão o que somos”. Vontade é a palavra-chave capaz de mudar os conceitos que estacionam sobre nós. É ela que faz um surdo ouvir, um cego ver ou um deficiente intelectual aprender mais e mais. É ela que faz um cadeirante querer correr o mundo com suas próprias rodas, colecionando quilômetros e histórias em museus ou parques, no campo ou na praia, em cima ou embaixo d’água.
Fonte: http://www.viajandoblog.com/
No entanto, por mais que o mundo se travista de vontade, todos os caminhos continuam levando a Roma. Consciência é palavra de ordem, acessibilidade é palavra de ação. Informação, lazer, cultura e conhecimentos são para todos, independentemente das fronteiras que a vida nos impõe, sejam elas temporárias ou permanentes.
Acessibilidade é inclusão. É garantir o ir e o vir com segurança e autonomia para qualquer lugar que o destino nos revele. É não nos vermos destacados por aquilo que não podemos fazer e sim pelo que fazemos. Acessibilidade é existir na plenitude da nossa essência viajante, é poder aproveitar as cidades e o que elas têm para oferecer, é simplesmente um direito de todos. Pratique essa ideia, pratique Tour sem Fronteiras.

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