Uma Bienal de acessibilidades

     Imaginação, devaneio, crítica ou puramente uma análise estética: a 31ª Bienal de São Paulo apresenta trabalhos que desafiam a compreensão de apreciadores e curiosos das artes. Num mundo contemporâneo onde as antigas formas de produção nas mais diversas áreas já não cabem no atual contexto global e os novos formatos ainda não foram delineados, “como (compreender / entender / apreciar / pensar em) coisas que não existem”? Essas são perspectivas da Bienal que vão além das barreiras físicas e que instigam os limites da nossa acessibilidade cultural.
      Assim como tudo no mundo, a nossa aproximação com a arte e com a cultura só faz sentido quando nos tornamos acessíveis a elas. Precisamos ir além da compreensão e do óbvio para enxergarmos uma mensagem onde parece apenas haver rabiscos, ferros retorcidos ou garrafas de plástico. Nem tudo é concreto, nem tudo está claro. Muitas vezes o conceito filosófico de arte se encontra apenas no conteúdo, transcendendo as formas físicas do objeto.

Bienal de São Paulo (Fonte: jovempam.uol.com.br)
    Essa acessibilidade pode ser estabelecida de maneiras divergentes, impondo significados diversos que estão diretamente ligados à cultura do visitante. Ou seja, as interpretações serão feitas de acordo com a formação cultural e social de cada um, gerando visões e impactos diferenciados. Até mesmo a ausência de sentimento já se configura como resposta. A indiferença pode ser entendida como distanciamento e, consequentemente, como um aspecto que evidencia limitações de compreensão dos trabalhos pelo visitante.
     A aversão à obra ou a simples discordância também pode ser considerada uma forma de mensurar sua acessibilidade. O visitante entende o que o autor do trabalho quis passar, mas diverge do conteúdo por estar em desacordo com a sua cultura/crença ou até mesmo por não considerar aquilo como uma forma de arte. Muitas vezes o trabalho gera um sentimento de transgressão tão grande que, mais do que apenas cultural, a acessibilidade passa a ser espacial, restringindo o contato com a obra aos olhos dos “capacitados” para entender o trabalho na sua essência. Essa restrição está muito presente em peças com teor de crítica social e religiosa.

Obra "Mujawara" (Foto: Ronald Souza)

   No entanto, apesar do preciosismo interpretativo que permeia a essência humana, nem tudo precisa de explicação para ser acessível. Muitas vezes é a experimentação visual que conta; a estética pela estética que carrega consigo a função objetiva de agradar e desagradar, sem elucubrações profundas ou devaneios aristotélicos. Se as novas formas de produção artística ainda não foram delineadas, por que não ousar?  Por que não abusar da criatividade? É a arte na sua forma de acessibilidade mais rasa.
     Diante de tantos trabalhos controversos, visitar a Bienal acaba se transformando num exercício de abstração, muito embora seja quase impossível não desenvolver algum tipo de relação com as obras, seja pela beleza, pelo conteúdo ou pelo impacto gerado. E essas relações nem sempre são positivas ou condizentes com aquela que o artista queria estabelecer. Mas para que serve a arte senão para gerar discussões? O que é a arte senão a beleza em meio ao caos? Bons ou ruins, obras de arte buscam despertar sentimentos e são eles que conferem importância social ao trabalho e legitimam sua acessibilidade.

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